O SEGREDO DE CAROLINA

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Estava eu na AR do Freixieiro, esse ano o meu contato era unicamente com o escalão dos adultos. Não era o que eu desejava, mas era o que me permitiam.

Apesar disso estava presente em todos os jogos de toda a base desse clube. Um domingo presenciei um jogo entre adolescentes e vi uma equipe distinta das demais. O melhor jogador dessa agremiação era um garoto mais jovem que todos os demais na quadra e esta equipe que depois fiquei sabendo chamava-se Gramidense I.F.C, seus atletas tecnicamente eram bem superiores à equipe do Freixieiro e às outras equipes desse escalão na cidade do Porto.

Terminando esse jogo dirigi-me aos vestuários do Gramidense para felicitar a treinadora e a sua equipe. Acabámos por ter uma longa conversa e ao finalizar dei-lhe a ideia de poder ajudá-la e dar um treino à sua equipe na sua quadra, que soube nesse momento que estava apenas a uns 25 minutos do Porto.

No dia e hora combinado, Carolina apareceu e foi-me contando pormenores do seu clube e da sua trajetória. Ela era formada em educação física e havia vivido muito tempo em na África do Sul, onde nasceu (esteve até aos 8 anos).

Fazia uns anos ela havia retornado a Portugal. Notei que ela tinha grande carinho e sacrificava-se muito pelos seus meninos, jovens atletas.

O Gramidense era composto por duas pessoas. Pelo seu presidente e pela Carolina apenas, mais ninguém, contudo isto que à primeira vista parecia uma grande desvantagem acabei percebendo com o tempo que, curiosamente redundou ser uma grande vantagem. Comentei no trajeto, com a Carolina que havia gostado muito tecnicamente da equipe dela e especialmente do mais jovem da sua equipe, que me despertou bastante à atenção.

Ela disse-me então:

“Ahhh sim o Ricardinho, esse miúdo tem muitas qualidades e tem dois anos a menos que seus companheiros”.

Chegámos à quadra e desse momento em diante nasceu uma grande e sincera amizade entre os rapazes, Carolina e eu.

A estrutura do clube era uma quadra, as bolas e a dedicação da Carolina. Não havia absolutamente mais nada.

Então qual era o segredo dessa equipe, em ser tecnicamente superior às outras concorrentes com muito mais estrutura e recursos.

Gente, atenção, a bola. A BOLA gente.

Enquanto as outras equipes pouca atenção davam a parte técnica e ao jogar, Carolina citava sua equipe para trabalhar algo físico antes do horário de poder entrar na quadra. Quando a quadra estava disponível então imediatamente as bolas velhas ou usadas ou desgastadas rolavam na pista. Passei a ir frequentemente ao Gramidense. Essa equipe com Ricardinho foi um ano mais tarde campeã nacional na final diante do Sporting.

Agora vou tocar em algo que espero que me compreendam pois tenho de dizer-lhes.

O trabalho que se realiza no BRASIL, ESPANHA e PORTUGAL entre as idades dos 14, 15, 16 e 17 anos, apesar de toda boa vontade das pessoas envolvidas nesse processo é INEFICIENTE.

Chega ao ponto de ser de tédio para os atletas e espectadores do treino. Desculpem, pois, respeito muito a vossa extrema dedicação.

A Carolina com o pouco que tinha era objetiva e sabia que é jogando que se aprende a jogar.

O que vejo hoje é uma busca insana por metodologias milagrosas que não existem e não entram no “X” da questão. E o “X” da questão é que se os nossos atletas não conhecerem os segredos do bem jogar não vão chegar com qualidade mais tarde.

Repito, sei que vocês querem o melhor para vossas equipes, mas os seus conceitos são INEFICAZES, IMPRODUTIVOS.

Metodologia não é coisa que se vende no armazém da esquina.

Carolina tinha uma grande virtude, ela escutava e foi uma das melhores treinadoras que conheci. Depois de ela ser campeã nacional juvenil eu fui ao Brasil. Quando retornei ela tinha montado outra equipe com outros rapazes e fiquei admirado como ela os fazia movimentar. Os apoios dela nessa época eram o seu namorado, Ricardo que hoje é o marido, o Zego e os seus alunos.

Alguns dizem-me que eu deveria vender meu método. Ganhar dinheiro. Como vender algo que não tenho. O que tenho é o meu jeito, minha dedicação e quando escrevo aqui abro o coração para que esse jeito seja apenas compreendido. Jeito cada um tem o seu. Encontrem o seu.

DEDICO ESTE BREVE COMENTÁRIO A TODAS AS TREINADORAS DO MUNDO E CLARO À CAROLINA.

Abraço aos companheiros do 5×5
Zego

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